Coçava o dorso do cão e pensava na cena que acabara de testemunhar. Os velhos senhores armados de longas varas confundiam-se para ele com os guardas prisionais, os juízes de instrução e os informadores que espiavam, tentando ver se o vizinho falava de política enquanto ia às compras. O que é que impelia aquelas pessoas para a sua actividade sinistra? A maldade? Sem dúvida, mas também o desejo de ordem. Porque o desejo de ordem quer transformar o mundo humano num reino inorgânico onde tudo funcional, bem regulado, onde tudo se encontra submetido a uma vontade impessoal. O desejo de ordem é ao mesmo tempo desejo de morte, porque a vida é perpétua violação da ordem. Ou, inversamente, o desejo de ordem é o pretexto virtuoso através do qual o ódio do homem pelo homen justifica as suas malfeitorias.Depois, pensou na jovem loura loura que queria impedi-lo de entrar no Richmond (hotel) com o cão e experimentou por ela um ódio doloroso. Os velhos armados de varas não o irritavam, conhecia-os bem, previa-os, nunca duvidara que existissem e que existiriam sempre e seriam sempre seus perseguidores. Mas aquela mulher nova era a sua derrota. Era bonita e entrara e entrara em cena não como perseguidor mas como espectador que, fascinado pelo espectáculo, se identifica com os perseguidores.Jakub sentia-se sempre transido de horror ante a ideia de que os que assistem estão prontos a segurar a vítima durante a execução. Porque, com o tempo, o carrasco tornou-se figura próxima e familiar, ao passo que o perseguido tem qualquer coisa que tresanda a aristocrata. A alma da multidão, que se identificava outrora com os miseráveis perseguidos, identifica-se hoje com a miséria dos perseguidores. Porque a caça ao homem é no nosso século a caça aos priveligiados: aos que lêem livros ou que têm um cão.
às sortes
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Não pode ser bom um sistema de avaliação onde uma decisão importante na
vida de um jovem (se entra ou não em certo curso superior, se entra ou não
em cer...
Há 2 dias
7 comentários:
és inteligente
Vai passear :P
Um técnico de electrónica, que agora está a tirar um mestrado para aprender a fazer sites, a ler Milan Kundera?
Pfff...vai masé ler Paulo Coelho e Dan Brown que já é muito bom para ti.
xD
Riot:
Sim. E a fazer uns trabalhos muito catitas que até dão jeito a outras pessoas. Ca burro...
Só um aparte.
Existe ordem onde quer que exista um padrão, onde os eventos e as coisas tomam um certo rumo, passam por certos estágios pré-definidos.
É dizer que tudo tem estruturas e o "conteúdo" é obrigado a adaptar-se a essas estruturas, trabalhar e trabalhar-se nelas.
Relativamente à sociedade. Toda a sociedade existe num contexto de ordem civilizacional. Não acredito que essa ordem deixe de existir só porque o Estado tem menos presença nessa sociedade.
Mesmo sem Estado, estão lá as pessoas, e elas precisam de encontrar lugares comuns e regras comuns de relacionamento e subsistência.
A única maneira de escapar à ordem civilizacional seria isolar-se no meio da natureza, completamente desterrado da ordem humana. Mas mesmo assim, aí encontraria a ordem natural despida do artifício e manipulação do Ser Humano.
Antes de dizeres que não percebi nada do post ( :p )deixa-me dizer-te que isto é apenas uma reflexão livre sobre as palavras a negrito.
A ordem (ou falta dela) é somente uma percepção que o Homem tem ao olhar para o mundo. Sem o raciocínio e o juízo do homem, tudo é vida e ciclos de vida. Até porque no aparente caos existe sempre um objectivo maior universal comum a todas as coisas. Pelo menos pa minha ideia xD
Falha
Pois Kundera também é meu romancista preferido. Mas nada entendo de informática. =P
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