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sexta-feira, janeiro 09, 2009

Neve




A última vez que me lembro ter nevado, cá em baixo, em Guimarães, andava no 11º ano, julgo, e era uma quinta-feira. Nada que se compare com o que estou a ver da janela. Está tudo branco. E, dificilmente, poderia haver surpresa que me deixasse tão contente, logo após acordar.

BALADA DA NEVE

Batem leve, levemente, 
Como quem chama por mim. 
Será chuva? Será gente? 
Gente não é, certamente 
E a chuva não bate assim.

É talvez a ventania: 
Mas há pouco, há poucochinho, 
Nem uma agulha bulia 
Na quieta melancolia 
Dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente, 
Com tão estranha leveza, 
Que mal se ouve, mal se sente? 
Não é chuva, nem é gente, 
Nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía 
Do azul cinzento do céu, 
Branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via! 
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça. 
Pôs tudo da cor do linho. 
Passa gente e, quando passa, 
Os passos imprime e traça 
Na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais 
Da pobre gente que avança, 
E noto, por entre os mais, 
Os traços miniaturais 
Duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... 
A neve deixa inda vê-los, 
Primeiro, bem definidos, 
Depois, em sulcos compridos, 
Porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador 
Sofra tormentos, enfim! 
Mas as crianças, Senhor, 
Porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza, 
Uma funda turbação 
Entra em mim, fica em mim presa. 
Cai neve na Natureza 
 E cai no meu coração.

Augusto Gil


sábado, novembro 01, 2008

Entretanto

Corações partidos, almas chorosas e sonhos sorridentes fazem-se caros.
Eu não.
Escrevo-te em papel rasca com tinta barata. Aliás, a esferográfica nem sequer é minha: fanei-a.
Em tempo de crise, escrever é um bom investimento. As palavras ficam ao preço da chuva com a falta de procura.

Aprendi uma palavra nova, hoje. Escalfeta.
Diz que é para aquecer os pés. Tê-los quentes é particularmente agradável, no Inverno. Não concebo em que contexto poderei usar este substantivo. Pés é conversa que não me passa muito pela boca. Alguns têm-nos nas nuvens.

Tenho andado mundano, a pé. É quanto poupo.

Ao darmos os primeiros passos, sem ajuda, inscrevemo-nos, automaticamente, na lista dos preguiçosos crónicos. Há lá desculpa para ficar parado?

Tenho pensado muito nisso. Nem tenho feito a barba. Nenhum homem pode ser excelso sem barba. Esfrega-la ajuda o raciocínio. Tenho-a rala, visto que ando a fazer mira rente ao chão.

Tiro aos patos é para caçadores. Sou um bicho do mar.

E tenho letra feia. Disseram-me que tinha de melhora-la. Homologa-la. Taxa-la. Definir quotas, como fizeram às importações chinesas. Não ligo puto.

Afinal, só quero enriquecer às tuas custas. São palavras baratas que te vão sair caras. Teu perder, meu proveito.

(Este corredor onde me sento mediou o divórcio entre a Senhora das Dores e o Leandro. Curiosamente, só ele é que pára em casa dela. Nunca lá vi mais ninguém. Talvez ande metido com ela. Malditos advogados.)

Continuas a olhar para o tabuleiro. Vá lá. Não há grande ciência nisso. Já devias ter comido o peão há coisa de três semanas. Enquanto pensas, ando de mala às costas. A pé, de comboio... pouco importa.

Arranjo palavras a preços módicos, comprando-as por atacado.
Espero.
Os amores ficam para trás, nas estações. Mudos.
Sigo na carruagem que fugir mais cedo.
E sorrio.
A vantagem técnica da vida não andar às arrecuas.




Porto, 31 de Outubro de 2008



segunda-feira, outubro 29, 2007

Quase Novembro


Em dias destes
Sabe-me escrever
Poemas de Amor
A torto e a direito
Num parapeito
Sem saber onde
Nem saber a quem.


sexta-feira, junho 22, 2007

Coisas de Menino III



Orvalho
Prenúncio de madrugada
Em vão te colho
Para me refrescar
Mais que esta manhã

Mas...

Quando começo o dia
Aurora d'um sonho teu
Desperto, algures
A curta distância, a pé
De uma alegria qualquer

sexta-feira, maio 25, 2007

Coisas de Menino II



Não te sei
Não te tenho

Imagino
Como seria
Acariciar-te sem texturas
Perscrutar o teu olhar indistinto
E nadar num rascunho de cabelos

Vou desenhando um esboço teu
A partir de desejos
Projecto de esperanças
Difusas…

Sei e tenho
Aquilo que te suponho
Mas a ti, não.

Rasgo o papel
Preparado para esperar
Sento-me no passeio
E guardo o teu lugar.

quarta-feira, maio 23, 2007

Coisas de Menino I




Acredito
Que nesse lado do mundo em que estás
Os arco-íris têm mais cores
Mesmo sem sol nem chuva
Apenas um pôr-do-sol eterno
Enquanto sorris



terça-feira, julho 18, 2006

Exames, falta de tempo e afins...

Tempo Imperfeito

I

Erro sem destino, perdido,
Complexamente desnaturado,
Desdenho e venero o abrangente,
E comove-me o absurdo...

Eu verso sem querer rimar,
Sem vontade nem paciência,
Em distracção só e abstracta,
Transmutação inerte de ser.

Adaptação e sublevação constantes,
São os meus dogmas camaleónicos,
Inerentes ao meu espírito latente,
Convecção entre o sonho e a alma.

II

Numa agreste solidão sentida,
Olho-me de lado e não me vejo,
Vejo-me e não me reconheço,
Findo eternamente sem tombar.

Encosto-me à vida inseguro,
Sou fracção de um polimórfico,
Com futuro estagnado, imóvel,
Fatigado de existência penosa.

O tempo medido é preciso,
Pelos relógios, criação nossa,
Mas nós, Efémeros Imortais,
Vivemo-lo com sentidos rombos.


III

Alheio á vida e ao sentir,
Neste planalto de vivência,
Com grave tontura de cair,
Viver é uma amarga ciência.

Descola... e parte o Tempo!
Com celeridade, impetuoso!
Esbatem-se as cores num momento!
Deixando um outrora talvez indecoroso!

E um minuto está passado!
E eu deixo-o com respeito,
Aquele bem e mal amado:
O nosso Tempo Imperfeito.


Jacinto
Cardoso

sábado, maio 13, 2006

Balão

Um balão vazio

No chão

E mesmo da altura que o via

Olhava para cima

O balão está vazio

Porquê?

Pode ter sido um pássaro que o picou

Em ascensão

Mas o balão pode-se ter esvaziado

Por si só

Viu o céu e subiu

Há balões que se esvaziam por

Si sós

Os balões que acreditam incham

E sobem

Mas também rebentam

E há balões que rebentam por si

SÓS

(mas podemos estar sozinhos estando SÓS?

Sós é plural, como podemos estar muitos sós?

EU, TU, ELE/A, …, VÓS, ELES/AS.

Se calhar podemos…)

Vão sem ver

E talvez não sejam os balões

Que estão sós

Se calhar sou eu que tenho

Ar

Dentro

Sou só um balão

Um balão


Alfredo Novais

sábado, abril 01, 2006

Há dias

Há dias
Em que temos de lutar contra quem amamos
Para perpetuar esse amor
Pois a pena do consenso é a perda
Afastá-los deles, do nosso querer
Arrancar ambições ao que sentimos
O bem que lhes queremos
Se não lutares pelo qual crês
Matas quem amas
E morres também

Por isso,
Nesses dias,
Luta e deixa viver.


Jacinto Cardoso