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sábado, março 03, 2012

Esta festa não é minha - Milan Kundera

Texto publicado em 1995 na Frankfurter Rundschau, com outros textos que celebravam o centésimo aniversário do nascimento do cinema.

O que os irmãos Lumière inventaram, em 1895, não foi uma arte, mas uma técnica que permitia apreender, mostrar, conservar e arquivar a imagem visual de uma realidade, não num fragmento de segundo, mas no seu movimento e duração. Sem esta descoberta da «fotografia em movimento», o mundo não seria hoje o que é: a nova técnica tornou-se, primo, o principal agente de embrutecimento (incomparavelmente mais poderoso do que a má literatura de antanho: spots publicitários, série televisivas), secundo, o agente da indiscrição planetária (as câmaras que filmam secretamente adversários políticos em situações comprometedoras, imortalizam a dor de uma mulher seminua estendida numa maca após um atentado...).
É verdade que existe o filme como arte: mas a sua importância é muito mais reduzida do que a do filme como técnica e a sua história é, com certeza, a mais breve de todas as histórias das artes. Recordo jantar em Paris há mais de 20 anos. Um jovem, simpático, inteligente, fala de Fellini com divertido desprezo trocista. O seu último filme, acha-o francamente mau. Conhecendo o preço da imaginação, sinto pelos filmes de Fellini uma humilde admiração, em primeiro lugar. É perante este jovem brilhante, na França do início dos anos oitenta, que experimento, pela primeira vez, uma sensação nunca conhecida na Checoslováquia, mesmo nos piores anos do estalinismo: a sensação de me encontrar na época do pós-arte, num mundo em que a arte desaparece porque desaparecem a necessidade da arte, a sensibilidade, o amor por ela.
A partir de então, verifiquei cada vez mais frequentemente que Fellini já não era apreciado; mesmo tendo sido ele a conseguir fazer da sua obra toda uma grande época da história da arte moderna (como Stravinsky, como Picasso); mesmo tendo sido ele a realizar com uma fantasia incomparável a fusão do sonho e da realidade, esse velho programa-desejo dos surrealistas; mesmo tendo sido ele que, no seu último periodo (particularmente desconsiderado), soube dotar o seu olhar sonhador de uma lucidez que desmascara cruelmente o nosso mundo contemporâneo (recordemos Prova de Orquestra, A Cidade das Mulheres, E la nave va, Ginger e Fred, Entrevista, La Voce della luna). 
Foi neste último período que Fellini se confrontou violentamente com Berlusconi, opondo-se à sua prática de deixar interromper os filmes pela publicidade, na televisão. Neste confronto, distingui um sentido profundo: tendo em conta que o spot publicitário é também um género cinematográfico, tratava-se do confronto entre duas heranças dos irmãos Lumière: o confronto do filme como arte e do filme como agente de estupidificação. O resultado é conhecido: o filme como arte perdeu.
O confronto teve o seu epílogo em 1993, quando a televisão berlusconiana projectou nos ecrãs o corpo de Fellini, nu, desarmado, em agonia (estranha coincidência: foi em A Doce Vida, de 1960, que, numa cena inesquecível, a fúria necrófila das câmaras foi surpreendida e mostrada, profeticamente, pela primeira vez). A viragem histórica chegava ao fim: como herdeiros dos irmãos Lumière, os órfãos de Fellini já não pesavam grande coisa. A Europa de Fellini era substituída por outra Europa, muito diferente. Cem anos de cinema? Sim. Mas esta festa não é minha.


segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Uma Casa Portuguesa

Este texto é um absoluto clássico de 1984. E acaba por ser um retrato orwelliano à portuguesa:

Uma Casa Portuguesa

Um indivíduo anda aborrecido com o emprego que tem, ou precisa de emprego ou ambiciona, por razões óbvias, ganhar mais. As coisas correm-lhe cada vez pior e as empresas privadas não o querem. Esclarecidamente, o indivíduo pensa no Estado, a que supõe o dever de lhe dar uma ocupação e proventos compatíveis. Não encontra nada ou o que encontra não o satisfaz.

Deste fracasso o indivíduo retira a conclusão de que o Estado não cumpre cabalmente as suas funções. Os seus enormes talentos merecem com certeza ser usados e seriam com certeza usados por um Estado que se prezasse. O indivíduo concebe então o plano simples de consequir que o Estado reconheça a sua utilidade. Procura dentro de si sinais de distinção. Depressa descobre uma especialidade, um amor, uma causa. Digamos, por exemplo, a casa portuguesa.

A casa portuguesa típica, que lhe despertou sempre surtos de paixão, desaparece lentamente da paisagem. As câmaras não a protegem; a Fundação Gulbenkian ignora-a; o público despreza-a. A preservação da casa portuguesa constitui um interesse social, digno da atenção do Estado. Aliás, todos os interesses sociais são dignos da atenção do Estado. O indivíduo decide, portanto, persuadir o Estado a encarregá-lo de preservar a casa portuguesa, tão ameaçada pela incúria, por autarcas néscios e por emigrantes.

Convoca três amigos: dois arquitectos e um autoproclamado sociólogo, como ele convencidos da sua importância e carentes de uns dinheiros. Os quatro põem-se em campo. Trata-se de obter acesso a um ministro ou a um secretário de Estado, através de relações pessoais ou de influências partidárias. O ideal é escolhê-lo num departamento com objectivos tão etéreos e brumosos como a própria preservação da casa portuguesa: a Cultura, a Qualidade de Vida, a Família, o Ordenamento Territorial, a Paz nas Consciências. Em rigor, qualquer serve, mas estes apreciam em particular os projectos fantásticos.

Imaginemos que o indivíduo e os três amigos se apoderam do ministro da Cultura. Tal ministro, principalmente se, como com frequência sucede, é analfabeto ou quase, jamais se atreverá a manifestar indiferença seja pelo que for que se apresente como Cultura (com C grande). No «Botequim», Natália Correia vela. A esperteza reside em que tudo lhe pode ser apresentado como Cultura, até Natália Correia e a preservação da casa portuguesa. Intimidado, aflito, prevendo críticas devastadoras à sua relutância em preservar a casa portuguesa, o ministro rende-se. Discretamente, e supondo assim desembaraçar-se do sarilho, nomeia por despacho uma Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa, com o indivíduo e os três amigos, que passam a receber a remuneração mensal de cento e cinquenta contos, para o chefe, e de cem cada, para os comparsas.

Ganhou-se a primeira batalha. O indivíduo adquiriu uma posição oficial. O próximo passo consiste em montar cerco ao gabinete do ministro para lhe subtrair «espaço», isto é instalações. Como preservar a casa portuguesa nos corredores ou nos cafés? Sem telefones? Sem um sítio para guardar papéis e atender pessoas? Os argumentos parecem racionais, a reivindicação justa. Comprometido no princípio, o ministro volta a render-se. A Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa instala-se em duas assoalhadas, num canto obscuro do ministério.

Daí reclama telefones, um contínuo (para recados), uma escriturária-dactilógrafa e um técnico de terceira, destacados de outros serviços ou contratados de fresco entre familiares e indigentes. Como recusar pedidos tão lógicos e triviais? Existe a Comissão, existem duas assoalhadas; o resto segue-se. O trabalho vai, enfim, começar a sério.

A Comissão produz, após esforços esplêndidos, um documento de dezassete páginas com o título: «A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural». Forte de semelhante obra, entra na matéria. Pouco a pouco, estende os seus tentáculos. Ocorre-lhe desde logo que os seus objectivos são interdepartamentais. A casa portuguesa também é da responsabilidade dos ministérios das Obras Públicas e Habitação, da Qualidade de Vida e dos Assuntos Sociais. A Comissão exige, por consequência, que se forme uma subcomissão com «representantes qualificados dessas áreas», e que se lhe atribuam os respectivos subsídios. Requisita, evidentemente, um carro para as tarefas de coordenação (e para ir a Sintra aos domingos). Mas não se esquece nem das autarquias, nem dos emigrantes. Cheios de zelo, os seus membros partem para a província, enquanto o chefe, com mais majestade, «se desloca» às colónias portuguesas no estrangeiro, com o objectivo de «manter o perfil» das nossas queridas aldeias.

Entretanto, o chefe já informou o ministro da impossibilidade física de prosseguir estas enérgicas actividades em duas meras assoalhadas. Em dura luta com várias direcções-gerais, institutos e gabinetes, a Comissão acaba por conquistar mais cinco e aumenta o seu pessoal de sete para vinte e sete. Chegou a altura de se ocupar da decisiva questão dos «contactos internacionais». A inutilidade notória do exercício, assegura que a Comissão brilhará. No Conselho da Europa, na UNESCO, em viagens diplomáticas à Assíria ou ao Daomé, o chefe e os sócios discutirão moções, aprovarão recomendações, estudarão acordos de intercâmbio, comerão jantares e tirarão retratos. O mundo ficará sabendo que Portugal, país civilizado, se preocupa com a preservação da casa portuguesa. O orçamento da Comissão subiu de três mil contos por ano para cinquenta mil, o que a torna uma coisa digna de respeito e, pelo menos, de uma condecoração da Embaixada Francesa.

A Comissão, porém, é precária. Não tem lei orgânica e não tem quadro. Acima de tudo, não tem quadro. Os seus membros e empregados vivem no risco de despedimento, o que compreensivelmente os perturba, impedindo-os de trabalhar como gostariam. Para eles, os seus inestimáveis serviços justificam, mais, clamam, que lhes seja concedida segurança e aposentadoria. O ministro da Cultura entende esta angústia, porque aprecia que os seus subordinados o estimem. O ministro das Finanças, que não entra no ministério da Cultura, não se comove tanto. Mas é-lhe explicado o alcance da preservação da casa portuguesa, a sua indispensabilidade, o prestígio que a Comissão adquiriu em Bogotá e em Munique, e ele contrariadamente cede.

A Comissão transforma-se, deste modo, em Instituto papa a Preservação da Casa Portuguesa, com um quadro de oitenta lugares, sendo cinquenta instantaneamente preenchidos. Muda de instalações, recruta telefonistas, motoristas, contínuos, técnicos, conselheiros, assessores. Gasta agora duzentos mil contos. O chefe inscreve-se no PSD e fala-se discretamente dele para secretário de Estado, em parte por causa de um livro de excessivo mérito chamado «A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de Uma Problemática, a Nível Urbano e Rural».

A moral da história é a seguinte: se amanhã desaparecessem duzentos mil funcionários públicos, ninguém, excepto os próprios, daria por nada. Ou daria - daria porque pagava metade dos impostos.

Vasco Púlido Valente



terça-feira, dezembro 28, 2010

A Sombra do Vento

Ando a ler isto. Imperdível, especialmente a personagem caricata de Fermín Romero de Torres:

Naqueles dias eu queria crer que o meu pai se ressentia por eu passar tanto tempo com os Barceló. O livreiro e a sobrinha viviam num mundo de luxo que o meu pai mal podia farejar. Pensava que o aborrecia que a criada de don Gustavo se comportasse comigo como se fosse minha mãe e que o ofendia que eu aceitasse que alguém pudesse desempenhar esse papel. Às vezes, enquanto eu andava pelas traseiras da loja a fazer embrulhos ou a preparar uma remessa, ouvia um ou outro cliente gracejar com o meu pai.
-O que o senhor tem de fazer, Sempere, é procurar uma boa rapariga, que agora o que mais por aí há são viúvas jeitosas e na flor da vida, o senhor bem me entende. Uma boa moça ajeita a vida a uma pessoa, meu amigo, e tira-lhe vinte anos de cima. O que um par de mamas não consegue...

(...)

-Quer dizer que eram amantes?
-Você gosta mesmo de folhetins, hem? Olhe, eu na vida privada da Nuria nunca me meti, porque a minha também não é propriamente para emoldurar. Se um dia você tiver uma filha, bênção que eu não desejo a ninguém, porque a lei da vida é que mais tarde ou mais cedo nos despedace o coração, enfim, como ia dizendo, se algum dia tiver uma filha começará sem dar por isso a dividir os homens em duas categorias: os que suspeita que dormem com ela e os que não. Quem disser que não, mente com quantos dentes tem na boca.

(...)

Toda aquela reticência mudou radicalmente no dia em que Fermín Romero de Torres descobriu Carole Lombard.
-Que busto, Jesus, Maria e José, que busto! - exclamou em plena projecção, possuído. - Aquilo não são mamas, são duas caravelas!
-Cale-se, seu grosseirão, ou chamo imediatamente o empregado - resmungou uma voz de confessionário situada um par de filas atrás de nós. - Não querem lá ver a pouca-vergonha? Que país de porcalhões!
-O melhor é baixar a voz, Fermín - aconselhei.
Fermín Romero de Torres não me ouvia. Estava perdido no suave vaivém daquele decote milagroso, com o sorriso arroubado e o os olhos envenenados de tecnicolor.

(...)

-Não sei onde enfia isso tudo, Fermín.
-Na minha família fomos sempre de metabolismo acelerado. A minha irmã Jesusa, que Deus tenha, era capaz de lanchar uma tortilha de morcela e alho francês e seis ovos a meio da tarde e depois portar-se como um cossaco ao jantar. Chamavam-lhe a Fígados porque sofria de mau hálito. Era igualzinha a mim, sabe? Com esta mesma tromba e este corpo serrano, bastante magro de carnes. Um médico de Cáceres disse-lhe uma vez que nós, os Romero de Torres, éramos do vínculo perdido entre o homem e o peixe-martelo, porque noventa por cento do nosso organismo é cartilagem, maioritariamente concentrado no nariz e no pavilhão auricular. Na aldeia confundiam muito a Jesusa comigo, porque a desgraçada nunca chegou a desenvolver peito e começou a fazer a barba antes de mim. Morreu de tísica aos vinte e dois anos, virgem terminal e apaixonada em segredo por um padre santarrão que quando se cruzava com ela na rua lhe dizia sempre: "Viva, Fermín, estás um homenzinho". Ironias da vida.


segunda-feira, dezembro 13, 2010

Alheia Crónica III

Quem achar que MEC manda apenas umas piadolas diárias, no Público, desengane-se.

Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.

Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.

Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

Via Citador.


terça-feira, novembro 23, 2010

Padrão

Tendo em conta que foi este poema que deu a origem ao blog, fazia aqui falta como a mãe aos filhos.

O Padrão

O esforço é grande e o homem é pequeno
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
este padrão ao pé do areal moreno
e para deante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão signala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por fazer é só com Deus.

E ao immenso e possível oceano
Ensinam estas quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é portuguez.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.


sexta-feira, novembro 05, 2010

Quinto Aniversário

Volvidos 5 anos sobre o início deste blogue convém tecer algumas considerações.

Muita coisa mudou. Mesmo. Não é só o tempo que erode a pele, é também o saber, o estar e sofrer de quem cá anda e cá andou. As mudanças são de fundo.

Quem deu início a este blogue não é a mesma pessoa que vos escreve agora. Olhando para trás, vejo um estranho. Talvez a nossa vida não seja um caminho, mas uma série de trilhos, feitos por várias pessoas.

Estou a uns potenciais dois meses de subir mais um lanço nesta longa escada. Suspeito que tudo isto seria impossível (ou insuportável) sem vós, seus palermas. Compadres (e comadre), esta é para vocês:


domingo, outubro 31, 2010

Alheia Crónica II

O elogio de Pedro Arroja a Miguel Esteves Cardoso não foi despiciendo. Este texto é brilhante.

Só um Mundo de Amor pode Durar a Vida Inteira

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'



quarta-feira, outubro 27, 2010

Nuovo Cinema Paradiso

Uma das mais extraordinárias cenas da História do Cinema.




Alfredo: Uma vez, um rei fez um banquete. Foram convidadas as mais belas princesas do reino. Um soldado que estava de guarda viu a filha do rei passar. Ela era a mais bela de todas, e ele apaixonou-se imediatamente por ela. Mas que podia um pobre soldado fazer perante a filha do rei?

Bem, finalmente, um dia, ele conseguiu falar com ela, e contou-lhe que não mais podia viver sem ela. A princesa ficou tão impressionada com a declaração do rapaz que lhe disse: “Se conseguires esperar 100 dias e 100 noites debaixo da minha varanda, ao fim desse tempo serei tua”. Deus! O soldado foi imediatamente para lá e esperou um dia. E dois dias. E dez. Depois vinte. E todas as noites a princesa olhava pela janela, mas ele nunca se mexeu. Fosse chuva, vento, neve, ele esteva sempre lá. Pássaros cagavam-lhe a cabeça e as abelhas picavam-no, não arredava pé .

Ao fim de 90 noites, ele estava completamente seco, pálido como um cadáver, lágrimas corriam-lhe pela face. Ele não se conseguia mexer. Ele já não tinha sequer força para dormir. E todo esse tempo a princesa observara-o. E na 99ª noite, o soldado levantou-se, pegou na cadeira, e foi-se embora.

Salvatore: Mas como? Mesmo no fim?!

Alfredo: Sim, sim. Mesmo no fim… E não me perguntes o significado disto, porque não faço ideia! Se descobrires a moral da história, diz-me.

(...)

Mais tarde, Salvatore conta a sua interpretação a Alfredo:

Salvatore: Se passasse mais uma noite, a princesa seria sua. Mas ela também podia faltar à sua promessa. E isso teria sido terrível. Ele morreria de desgosto. Assim, apesar de tudo, pelo menos durante 99 dias, ele viveu na ilusão que ela esteve ali à espera dele.


segunda-feira, maio 24, 2010

Alheia Crónica I

De todos os defeitos que um cronista pode ter, o que considero mais gravoso é a banalidade. Há meia dúzia de casos na nossa praça que gostaria de partilhar. Curiosamente, duas das minhas colunas de opinião favoritas estão na mesma revista, a NS', que vem com o Jornal de Notícias ao fim-de-semana. Aqui fica uma crónica antiga do Joel Neto que achei interessante e pouco comum:

É um género de magia

O mundo da atracção nunca cessará de maravilhar-me – e, entre as coisas que me maravilham nele, a mais maravilhosa é talvez o fascínio por mamas grandes. Pessoalmente, sou um homem de rabos. O rabo, sim, é pecado puro e simples. Já as mamas (eu talvez devesse dizer «seios», mas a palavra soa-me mal) são a maternidade na sua mais cabal acepção simbológica – e, embora não seja de excluir a existência de algum mistério em juntar o pecado e a maternidade numa mesma cobiça (eu também vi Donas de Casa Desesperadas, sei bem do que se trata), esta é uma coluna de respeito e, portanto, não estão autorizadas aqui misturas.

O que importa é que, segundo um estudo que leio numa daquelas revistas fúteis que de vez em quando não resistimos a compr… perdão, a ler no consultório do dentista, dois terços dos homens, ao cobiçarem uma mulher, olham-lhe primeiro para o peito e só depois para as nádegas. Daí que se aceite, de alguma forma, a obsessão de tantas e tantas mulheres, gordas e magras, ricas e pobres, de meia-idade e agora também jovens (e mesmo extremamente jovens), com a dimensão das suas «prateleiras», para usar uma expressão cara aos alarves que entretanto se assumem como público-alvo. O que é mais difícil de aceitar é a naturalidade, mesmo o desvelo, com que as mulheres que aumentam o peito desvendam o enigma.

Ainda no outro dia vi Vanessa Oliveira, uma jovem e belíssima manequim portuguesa, portadora de uns extraordinários olhos verde-água e de um vago ar surfista que só apetece raptá-la, metê-la numa cabana de praia na Austrália e pô-la a surfar só para nós, explicar tintim por tintim, nas páginas do Diário de Notícias, como decidiu aumentar os seios (pronto, vá, «os seios»), contactou médicos e fornecedores e ponderou métodos e dimensões até ir parar a umas mamas americanas que se implantam mesmo por baixo dos canais mamários e, portanto, lhe permitirão um dia engravidar, assim que lhe sobrevenha a vontade. E a estupefacção resume-se numa questão simples: mas, Vanessa, isso não devia ser segredo?

Porque, quer dizer, de que servem umas mamas grandes se, entretanto, toda a gente ficou a saber que tudo não passa de silicone, laser e costura à linha? Acaso, quando é elogiada pela sua bela dentadura, uma mulher se vira e informa: «Muito obrigado, mas é placa»? Porventura um homem a quem alguém elogie uma performance sexual respira fundo e suspira: «Muito grato, muito grato, mas não fui eu, foram os comprimidos»? Pois eu não vejo como os peitos postiços possam ser diferentes. Uns peitos postiços não podem ter outro desígnio senão despertar urgências de profanação ainda maiores. São uma ilusão. Ora, como todos sabemos, no momento em que o ilusionista desvenda o seu truque, a magia perde todo o encanto. E, ademais, ninguém quer profanar um pedaço de borracha.

Naturalmente, o que está aqui em causa é de novo uma questão classista, um arrivismo social, muito mais do que esta nova mania para que todos os mistérios do sexo, do desejo e das emoções em geral sejam manipulados e esclarecidos com a «maior das naturalidades». O que está em causa é estas senhoras e estas meninas poderem dizer à vizinha do lado, à colega da escola ou à ex-mulher do novo marido que elas, sim, têm dinheiro e desembaraço e mente aberta suficientes para se fazerem Firefox, procurarem aqueles doutores todos, inclusive os mais caros, e obrigarem-nos a transformá-las em monumentos à fecundidade, às capas de revista e aos filmes do canal Venus.

Pois só é pena que, como ainda há dias admitiu Carmen Electra, «actriz» norte-americana que no passado teve a infeliz ideia de adubar os seus peitos perfeitinhos, venham muitas delas a chorar o par de melões, na certeza de que, agora, tirar de lá a borracha, a gordura extraída do rabo ou o que quer que tenham posto por baixo dos canais mamários as deixará com dois sacos de plástico vazios ao peito, com graves consequências para a qualidade do bronzeado e, aliás, para o grau de sofreguidão do marido, do namorado e/ou vizinho da frente agora tão saudosos de fechar a mão em conchinha e poderem arrebanhar de um só golpe toda a sua fertilidade.

Enfim, restam-lhes os antidepressivos. O que vale é que esta indústria sempre soube adaptar-se aos imperativos da economia dinâmica. No mais, e como tara, não me pronuncio. O Denny Crane também andou dois episódios à procura de uma mulher com perna de pau – e, no fim, não se queixou de nada. Mas eu prefiro não ir por aí. Há alçapões na alma de um homem que é melhor não abrir.

domingo, março 14, 2010

Mingos & Os Samurais - Irmãos de Sangue

O álbum arranca com uma música bem disposta, invocando os verdes anos dos Samurais. Bastante natural, visto que a música depressiva só entrou em voga nos anos 90. xD

Abril de 1963
Irmãos de Sangue

Berto acorda todos os dias com o refrão do Tutti-Frutti na cabeça. Mingos prefere Marino Marini. Nando julga-se um Navajo. Lau faz uma cabana e apaixona-se pelas tranças de Mila. Quim gostava de os acompanhar a trepar às figueiras se não tivesse medo de cair e entortar o aparelho dos dentes.



Carlos Tê / Rui Veloso

Ai as tardes nas matas
A folhagem por tapete
Tocando tamborim em latas
E a boca a fazer trompete

Subir pinheiro bela arte
Pintar o á­ndio na cara
Meia rota de estandarte
A flamejar na ponta de uma vara

Ai esse tempo
Quando o tempo era largo
Madressilva figo verde
Ai que doce o verde amargo

Correr solto nos velados
Ser tão ágil como o gamo
Ver a salamandra ao sol
E o pardal de ramo em ramo

Refrão

Eu sou comanche meio apache
Ele navajo e tu moicana
Faço a canoa e pesco o peixe
Tu és o lume da cabana

Pega nessa faca e faz um golpe
Põe o teu sangue no meu a jorrar
Eu juro trazer o escalpe
De quem roubar o sol do teu olhar

Refrão

quinta-feira, março 11, 2010

300º Post - Mingos & Os Samurais

Eis um dos meus álbuns preferidos.


Mingos & Os Samurais foi lançado em 1990, sendo o quinto álbum congeminado pela dupla Rui Veloso/Carlos Tê. Este trabalho é conceptual: conta a história de um grupo de amigos, de uma terriola para os lados do Porto, que formaram a banda que dá o nome ao álbum. A cereja em cima do bolo é a narrativa que acompanha o CD (ou vinil), descrevendo as peripécias dos nossos "heróis". Aqui fica a introdução:

Este é um disco de lenhas e lumes, de nomes e lugares-comuns. É a história banal de Mingos & os Samurais, banda de reconhecido insucesso, que se arrastou sem glória - mas com alegria e sedução - por diversos palcos durante os primórdios dos anos setenta, animando recintos dançantes.

Não há discos, nem luzes, nem polémicas. Há apenas suor e esquecimento. E é só por isso - pelo fait-divers do esquecimento - que a história merece ser contada com aleluias e hossanas. Tudo porque o mundo está cansado de biografias retumbantes. O sucesso enfastia, já não é o que era. É tempo dos perdedores. É preciso que saibam que são a maioria esmagadora. Se tiverem consciência de classe podem-se unir e formar uma associação cívica que torne menos insuportável a condição de anonimato geral. Acima de tudo é preciso que saibam que deles é o reino da não-história, lugar-limbo onde também se pode ser feliz, apesar de se ser foleiro e inocente, e tocar rapsódias nos mais recônditos salões e palanques do universo distrital.

Segue-se um breve calendário da existência do grupo: momentos importantes colectivos e individuais, antecedentes de infância, comunhões, ansiedades, reflexões, queixumes gerais, paixões, seduções, óbitos, e até mesmo uma peça epistolar a cappella em jeito de requiem.




300º Post - Mingos & Os Samurais

Eis um dos meus álbuns preferidos.


Mingos & Os Samurais foi lançado em 1990, sendo o quinto álbum congeminado pela dupla Rui Veloso/Carlos Tê. Este trabalho é conceptual: conta a história de um grupo de amigos, de uma terriola para os lados do Porto, que formaram a banda que dá o nome ao álbum. A cereja em cima do bolo é a narrativa que acompanha o CD (ou vinil), descrevendo as peripécias dos nossos "heróis". Aqui fica a introdução:

Este é um disco de lenhas e lumes, de nomes e lugares-comuns. É a história banal de Mingos & os Samurais, banda de reconhecido insucesso, que se arrastou sem glória - mas com alegria e sedução - por diversos palcos durante os primórdios dos anos setenta, animando recintos dançantes.

Não há discos, nem luzes, nem polémicas. Há apenas suor e esquecimento. E é só por isso - pelo fait-divers do esquecimento - que a história merece ser contada com aleluias e hossanas. Tudo porque o mundo está cansado de biografias retumbantes. O sucesso enfastia, já não é o que era. É tempo dos perdedores. É preciso que saibam que são a maioria esmagadora. Se tiverem consciência de classe podem-se unir e formar uma associação cívica que torne menos insuportável a condição de anonimato geral. Acima de tudo é preciso que saibam que deles é o reino da não-história, lugar-limbo onde também se pode ser feliz, apesar de se ser foleiro e inocente, e tocar rapsódias nos mais recônditos salões e palanques do universo distrital.

Segue-se um breve calendário da existência do grupo: momentos importantes colectivos e individuais, antecedentes de infância, comunhões, ansiedades, reflexões, queixumes gerais, paixões, seduções, óbitos, e até mesmo uma peça epistolar a cappella em jeito de requiem.




segunda-feira, novembro 30, 2009

Jeff Buckley: Last Goodbye




This is our last goodbye
I hate to feel the love between us die.
But it's over
Just hear this and then I'll go:
You gave me more to live for,
More than you'll ever know.

Well, this is our last embrace,
Must I dream and always see your face?
Why can't we overcome this wall?
Baby, maybe it's just because I didn't know you at all.

Kiss me, please kiss me,
But kiss me out of desire, babe, and not consolation.
Oh, you know it makes me so angry 'cause I know that in time
I'll only make you cry, this is our last goodbye.

Did you say, "No, this can't happen to me"?
And did you rush to the phone to call?
Was there a voice unkind in the back of your mind saying,
"Maybe, you didn't know him at all,
you didn't know him at all,
oh, you didn't know"?

Well, the bells out in the church tower chime,
Burning clues into this heart of mine.
Thinking so hard on her soft eyes, and the memories
Offer signs that it's over, it's over...

quinta-feira, novembro 05, 2009

Quarto Aniversário




Um bocado de destruição criativa, para variar.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Smart?

Algumas ideias interessantes, algumas ideias disparatadas, algumas ideias idiotas. Na Smart List da Wired Magazine há ideias para todos os gostos. Para ler e pensar.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Paranormal Activity

A única "paranormalidade" deste filme: tanta gente dizer que se assustou com ele. O exemplo acabado do "filme-nada" que teve excelente marketing. Um dos maiores cagalhotos cinematográficos que já vi.


PS: Achei pertinente avisar as pessoas para não ir ao cinema.

terça-feira, setembro 08, 2009

Velhos do Restelo

Crónica de João Miguel Tavares, na Notícias Magazine de 2 de Agosto:

Já pedi à minha querida esposa: «No dia em que eu começar a lançar suspiros para o ar e a dizer que no meu tempo é que era bom, vai à gaveta da cozinha e agride-me com o martelo dos bifes.» «No meu tempo é que era bom», «a juventude está perdida», «hoje em dia já não há respeito» e outras expressões parolamente melancólicas como estas são uma das coisas mais irritantes - e mais mentirosas, já agora - que existem no mundo. Soam-me sempre a conversa de velhinho gagá, com pantufas de lã nos pés e fotos amarelecidas a desfazerem-se entre os dedos. Ou então a discurso de taxista maldisposto, daqueles que defendem a necessidade de «um novo Salazar» para pôr o país «na ordem».

Nestas coisas dos costumes faz sempre falta alguma perspectiva histórica. Sabem o que escreveu Platão no século IV antes de Cristo? «O que está a acontecer aos nossos jovens? Eles desrespeitam os mais velhos, eles desobedecem aos pais, eles ignoram as leis. A sua moral está em queda. O que vai ser deles?» E o poeta grego Hesíodo, no século VIII antes de Cristo? «Não vejo qualquer esperança no futuro do nosso povo se ele estiver dependente da juventude frívola destes dias.» E que tal esta inscrição num túmulo egípcio com seis mil anos: «Vivemos tempos de decadência. Os nossos jovens já não respeitam os pais. São rudes e impacientes.» Os exemplos poderiam continuar, milénio após milénio, século após século, até aos nossos dias.

Todas as gerações acham, em suma, que a geração que lhes sucede é uma ameaça à civilização e ao pouco civismo que resta no mundo. É um milagre que as décadas passem e o Apocalipse não chegue. Ainda por cima, tenho o privilégio de pertencer à geração que Vicente Jorge Silva, num editorial que ficou para a história, apelidou de "rasca", após alguns meninos terem decidido exibir as nalguinhas numa manifestação. Eu deveria ser, portanto, a ralé da ralé. Mas serei? E, segundo esta teoria da decadência da civilização por via genética, serão os meus filhos piores que eu?

Caro leitor: não vá nessa conversa. Resista a todos os suspiros saudosistas, de um passado ordeiro e bem comportado que, na verdade, nunca existiu. Ou, se existiu, foi sempre pelas piores razões. Não estou a defender que não haja por aí excesso de laxismo, doses cavalares de mimo e alguns défices educacionais que superam em muito os três por cento admitidos pela Comunidade Europeia. Mas desenhar um grande quadro dramático, fingir que vivemos rodeados de uma tragédia grega em matéria de bons modos, é, pura e simplesmente, uma treta.

Somos cuidadosos com os nossos filhos. Damos-lhes oportunidades que nos estiveram vedadas. Acreditamos que eles podem vir a ser melhore do que alguma vez fomos e fazemos tudo para que o tempo deles seja melhor do que o nosso alguma vez foi. Da próxima vez que ouvir alguém elogiar «antigamente», encolha os ombros e mande-o para Platão. Por uma vez, sejamos optimistas: não há razão para o amanhã não ser melhor que o ontem. E tem sido melhor, de há seis mil anos para cá.
Subscrevo, por completo, o conteúdo desta crónica. E acrescento que, se as gerações passadas estão insatisfeitas com a sua prole, só têm a si próprios para culpar: foram eles que a criaram.

sábado, junho 20, 2009

A Valsa do Adeus II

Não resisti a acrescentar outro trecho, desta vez num registo mais cómico sobre as relações pessoais. E cheira-me que não será o último.

-O quê? - exclamou Jakub, desta vez deveras surpreendido. -Família? Não queres dizer que casaste?
-Casei, sim - disse Skreta.
-Com Suzy?
Suzy era uma médica das termas, amiga de Skreta havia anos, mas até aqui ele conseguira sempre, no último instante, fugir ao casamento.
-Sim, com Suzy - disse Skreta. - Bem sabes que eu costumava subir todos os domingos com ela ao miradouro.
-Então, sempre te casaste - disse Jakub num tom melancólico.
-Sempre que subíamos ao miradouro - continuava Skreta - Suzy tentava convencer-me de que devíamos casar. E eu ficava tão esgotado com a subida que me sentia velho e tinha a impressão de que, de facto, só me restava casar. Mas acabava por me dominar e, quando descíamos do miradouro, redescobria todo o meu vigor e já não tinha vontade de casar. Mas um dia Suzy meteu por um desvio e a subida durou tanto tempo que eu consenti no casamento antes de chegarmos lá acima. E agora estamos à espera de um filho, e eu tenho que pensar um bocadinho mais no problema do dinheiro. Este americano também pinta imagens piedosas. Seria possível fazer-se uma quantidade de dinheiro com isso. Que achas?
-Achas que há mercado para imagens piedosas?
-Um mercado fantástico! Meu velho, bastava instalar um stand ao lado da igreja nos dias de peregrinação e, se vendêssemos cada peça por cem coroas, seria uma fortuna! Eu podia encarregar-me de as vender e depois dividíamos os lucros a meias.
-E ele estaria de acordo?
-O tipo tem tanto dinheiro que não sabe o que há-de fazer com ele, e o mais certo é eu nunca conseguir convencê-lo a meter-se em negócios comigo... - disse Skreta, com uma praga.

sábado, junho 06, 2009

Trabalhos

Divulgo aqui os trabalhos que eu e os meus colegas temos desenvolvido para a disciplina Pós-Produção e Efeitos Especiais. São, basicamente, os genéricos, os créditos e os "bumpers", para telemóvel, das séries que fomos desenvolvendo ao longo do 2º semestre. Fica aqui o link para o grupo do Youtube.


quarta-feira, junho 03, 2009

Vizinhança

O Riot anda a fazer uma lista dos seus 30 álbuns preferidos, ao ritmo de um por dia. Recomenda-se uma olhadela, só para dar visitas ao rapaz.

PS: Radiohead nos 10 primeiros ou vai cair molho.